A Bíblia do Kalam
Capítulo 24 · Profético 8-10 min
Shuayb: O Pregador de Midiã
Justiça comercial e fé
Na Bíblia
Shuayb é frequentemente identificado por estudiosos muçulmanos com Jetro (Yitro em hebraico), o sogro de Moisés — embora essa identificação não seja unânime. Na Bíblia, Jetro é uma figura de peso surpreendente: sacerdote de Midiã que reconheceu o Deus de Israel como supremo e aconselhou Moisés sobre governança.
Quando Moisés fugiu do Egito após matar um egípcio, chegou a Midiã e encontrou as filhas de Jetro sendo impedidas de tirar água para seus rebanhos. Moisés as defendeu, e Jetro o recebeu em sua casa. Moisés casou-se com Zípora, filha de Jetro, e trabalhou como pastor por quarenta anos (Êxodo 2:15-21). Foi durante esse período em Midiã, pastoreando o rebanho de Jetro, que Moisés viu a sarça ardente no Monte Horeb.
Quando Moisés retornou do Egito com os israelitas, Jetro foi ao seu encontro e ouviu tudo o que Deus havia feito. Sua resposta foi uma confissão de fé: "Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses" (Êxodo 18:11). Ofereceu holocausto e sacrifícios a Deus.
Mas a contribuição mais prática de Jetro foi organizacional. Ao ver Moisés julgando o povo sozinho, do amanhecer ao anoitecer, disse: "Não é bom o que fazes. Sem dúvida desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; porque este negócio é muito pesado para ti; tu só não o podes fazer" (Êxodo 18:17-18). Aconselhou Moisés a nomear líderes sobre milhares, centenas, cinquentas e dezenas — o primeiro sistema judicial descentralizado da história bíblica. Moisés, o maior profeta do Antigo Testamento, teve a humildade de aceitar o conselho de seu sogro midianita.
O povo de Midiã, na Bíblia, tem uma história complexa. Eram descendentes de Abraão através de Quetura (Gênesis 25:2), o que os torna primos dos israelitas. Midiã era uma região comercial importante nas rotas entre a Arábia, o Egito e o Levante — o que torna significativo o tema da justiça comercial que o Alcorão associa a Shuayb.
No Alcorão
Shuayb é um dos profetas mais eloquentes do Alcorão — chamado pela tradição de "o orador dos profetas" (khatib al-anbiya). Sua missão é única entre os profetas: enquanto a maioria combatia a idolatria teológica, Shuayb combatia a idolatria econômica — a adoração do lucro acima da justiça.
Na Surata Hud, Shuayb disse ao povo de Midiã: "Ó meu povo, adorai a Deus. Não tendes outro deus além dEle. E não diminuais a medida e o peso. Vejo-vos em prosperidade, mas temo por vós o castigo de um dia abrangente. Ó meu povo, enchei a medida e o peso com justiça, e não defraudeis as pessoas em seus bens, e não pratiqueis a corrupção na terra" (Hud 11:84-85).
A resposta do povo revelou o cinismo que frequentemente acompanha a riqueza: "Ó Shuayb, é tua oração que te ordena que deixemos o que nossos pais adoravam ou que façamos com nossos bens o que quisermos? Tu és, certamente, o prudente, o sensato [disseram com ironia]" (Hud 11:87). Eles separavam religião de economia — podiam orar e fraudar ao mesmo tempo. Shuayb denunciou essa esquizofrenia espiritual.
Na Surata Al-A'raf, a mensagem é reforçada: "Enchei a medida e não sejais dos que diminuem. E pesai com a balança reta. E não defraudeis as pessoas em seus bens, nem pratiqueis a corrupção na terra" (Al-A'raf 7:85-86). Shuayb lembrou-os de que Deus os havia multiplicado: "E lembrai-vos de quando éreis poucos e Ele vos multiplicou" (Al-A'raf 7:86).
O povo rejeitou a mensagem e ameaçou expulsar Shuayb. A resposta dele foi firme: "Ó meu povo, agi segundo vossa capacidade, que eu agirei segundo a minha. Logo sabereis sobre quem cairá o castigo que o humilhará e quem é o mentiroso" (Hud 11:93). O castigo veio: um terremoto para o povo de Midiã (Al-A'raf 7:91) e a "sombra do dia" para o povo de Al-Aykah — uma nuvem que pareceu oferecer alívio do calor, mas explodiu em fogo (Ash-Shu'ara 26:189).
Shuayb sobreviveu com os crentes, e partiu com tristeza: "Ó meu povo, transmiti-vos as mensagens do meu Senhor e vos aconselhei. Como poderia lamentar um povo descrente?" (Al-A'raf 7:93).
O que as duas escrituras compartilham
Bíblia e Alcorão compartilham a conexão com Midiã e a ênfase na justiça prática. Jetro/Shuayb é apresentado nas duas tradições como um homem sábio, justo e preocupado com a ordem social. Na Bíblia, Jetro ensina organização e delegação; no Alcorão, Shuayb ensina honestidade comercial e justiça econômica. As duas dimensões se complementam: uma sociedade justa precisa tanto de estrutura administrativa quanto de ética nas transações.
Ambas as tradições reconhecem que a fé não é apenas sobre adoração a Deus — é sobre como tratamos uns aos outros, especialmente nos negócios e na balança da justiça cotidiana.
O que o Alcorão acrescenta
O Alcorão acrescenta a Shuayb uma mensagem profundamente contemporânea: a denúncia da fraude econômica como pecado espiritual. "Não diminuais a medida e o peso" não é apenas regra comercial — é teologia. Quem frauda na balança não está apenas roubando o próximo; está declarando que o lucro importa mais que Deus.
O Alcorão também narra a destruição dos dois povos — Midiã (pelo terremoto) e Al-Aykah (pela nuvem de fogo) — como consequência direta da injustiça econômica sistêmica. Isso é único na literatura profética: enquanto outros povos foram destruídos por idolatria pura (adorar estátuas), o povo de Shuayb foi destruído por idolatria prática (adorar o lucro). A mensagem é que a injustiça econômica é tão grave quanto a adoração de ídolos — ambas colocam algo no lugar de Deus.
A eloquência de Shuayb no Alcorão — seus argumentos racionais, sua paciência, sua tristeza final — faz dele um modelo de como o profeta deve falar: com clareza, compaixão e verdade, mesmo quando sabe que não será ouvido.
Insight do capítulo
Shuayb ensinou que a balança do mercado e a balança de Deus são a mesma — quem frauda uma, frauda a outra.