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كلامKALAM
Sahaba

بلال بن رباح

Bilal ibn Rabah

A Voz da Liberdade · 580-640 d.C.

Escravo etiope torturado por sua fe, libertado por Abu Bakr, tornou-se a primeira voz a chamar a humanidade para a oração.

Biografia

A história de Bilal ibn Rabah e a história que destrói toda narrativa racista que já tentaram colar no Islam. Bilal era um escravo. Negro. Etiope. Na Arabia do século VII, ser escravo negro significava ser invisivel. Propriedade. Sub-humano. Bilal pertencia a Umayyah ibn Khalaf, um dos homens mais ricos e crueis de Meca. E quando Bilal ouviu sobre a mensagem de Muhammad — que todos os seres humanos sao iguais perante Deus, que nenhum arabe e superior a um nao-arabe, que nenhum branco e superior a um negro — ele soube que aquela era a verdade. E a abraçou.

Quando Umayyah descobriu que seu escravo havia se tornado muculmano, a tortura comecou. Todo dia, sob o sol escaldante do deserto arabico, Bilal era arrastado para fora. Uma rocha gigante era colocada sobre seu peito. A temperatura do deserto passava de 50 graus. A pedra queimava sua pele. E Umayyah gritava: "Renuncia Muhammad! Adora al-Lat e al-Uzza!" Bilal, com uma pedra esmagando seus pulmoes, com a pele queimando, com a boca seca, respondia apenas uma palavra: "Ahad. Ahad." — "Um. Um." Deus e Um. Uma unica palavra que desafiava todo o sistema de poder, toda a hierarquia tribal, toda a estrutura de opressao de Meca. Um escravo, sem nenhum poder terreno, repetindo a verdade que nenhum senhor podia apagar.

Abu Bakr, ao testemunhar essa tortura, comprou Bilal por um preco absurdo e o libertou. Umayyah riu: "Voce pagou demais por um escravo sem valor." Abu Bakr respondeu: "Voce o vendeu barato demais." Bilal caminhou para fora daquela casa como homem livre. E a partir daquele momento, nunca mais se curvou diante de nenhum ser humano — apenas diante de Deus.

Quando o Islam se estabeleceu em Medina e a comunidade precisava de uma forma de chamar as pessoas para a oração, Muhammad escolheu Bilal. Nao escolheu um arabe nobre. Nao escolheu um poeta famoso. Escolheu o ex-escravo etiope. Bilal subiu ao telhado da mesquita e sua voz ecoou por toda Medina: "Allahu Akbar, Allahu Akbar..." O primeiro adhan da história. A primeira voz a chamar a humanidade para a oração islamica era a voz de um homem negro que havia sido escravo. Isso não e coincidencia. E declaracao teologica.

Bilal acompanhou Muhammad em todas as batalhas. Esteve em Badr, Uhud, Khandaq, Hudaybiyyah e na conquista de Meca. Quando os muculmanos reconquistaram Meca — a mesma cidade que havia torturado Bilal — Muhammad mandou Bilal subir ao topo da Kaaba e fazer o adhan. A Kaaba. O lugar mais sagrado da Arabia. E a voz que ecoou dali não foi a de um nobre Qurayshi. Foi a de Bilal. O ex-escravo. O etiope. O homem que repetiram "Ahad" sob a pedra. Alguns dos lideres de Meca ficaram furiosos: "Muhammad não encontrou ninguem melhor que esse corvo negro?" Abu Bakr respondeu: "Se voces repetirem isso, sao voces que não encontraram nada melhor que a ignorancia."

Apos a morte de Muhammad, Bilal não conseguia mais fazer o adhan. Toda vez que tentava, chegava na parte "Ash-hadu anna Muhammadan Rasulullah" e comecava a chorar tanto que não conseguia continuar. Pediu ao Califa Abu Bakr para ir a Siria, onde viveu o resto de seus dias. Dizem que só fez o adhan uma unica vez depois — quando visitou o tumulo do Profeta em Medina. E a cidade inteira chorou ao ouvir aquela voz novamente.

Virtudes

  • Fe inabalavel — sob tortura, repetia apenas "Ahad" (Um)
  • Dignidade absoluta — nunca se curvou diante de homens, apenas diante de Deus
  • Simbolo de igualdade — sua escolha como muezzin destruiu a hierarquia racial arabe
  • Lealdade ao Profeta — apos a morte de Muhammad, não conseguiu mais fazer o adhan de tanta saudade
  • Coragem sob opressao — sua resistencia inspirou geracoes de oprimidos

Frases famosas

أحد أحد

"Um. Um. (Repetido sob tortura — afirmando a unicidade de Deus)"

الله أكبر الله أكبر

"Deus e Maior. Deus e Maior. (As primeiras palavras do primeiro adhan da história)"

Legado

Bilal e a resposta viva do Islam ao racismo. Sua história prova que, desde o primeiro dia, o Islam rejeitou hierarquias de cor, tribo e classe. Um escravo negro se tornou a voz oficial da religiao — não apesar de ser negro, mas porque no Islam, o único criterio de superioridade e a consciência de Deus (taqwa). O adhan que ecoa em cada mesquita do mundo, cinco vezes por dia, em cada canto do planeta — esse ritual comecou com Bilal. Cada muezzin que sobe ao minarete esta, conscientemente ou nao, seguindo os passos de um ex-escravo etiope que preferiu ser esmagado por uma rocha a negar a verdade. Bilal não e um detalhe na história do Islam. Ele e a alma sonora dessa religiao.