A Bíblia do Kalam
Capítulo 6 · Êxodo 11 min
Moisés I: O Chamado
Da cesta no Nilo à sarça ardente
Na Bíblia
Séculos se passaram desde José. Um novo faraó subiu ao trono do Egito — um que não conhecia José nem se importava com seu legado. Os israelitas, que haviam chegado como hóspedes honrados, se tornaram escravos. O faraó os temia por sua multiplicação e ordenou que todo menino hebreu recém-nascido fosse jogado no Nilo (Êxodo 1:22).
Uma mulher da tribo de Levi deu à luz um filho e viu que era formoso. Escondeu-o por três meses. Quando não podia mais ocultá-lo, tomou uma cesta de juncos, calafetou-a com betume e colocou o bebê dentro, depositando-o entre os juncos à beira do Nilo (Êxodo 2:3). Miriã, a irmã mais velha, ficou de longe observando.
A filha do faraó desceu ao rio para se banhar e encontrou a cesta. Ao ver o bebê chorando, teve compaixão: "Este é um dos filhos dos hebreus" (Êxodo 2:6). Miriã se aproximou e ofereceu buscar uma ama hebréia — trouxe a própria mãe de Moisés. Assim, Moisés foi amamentado por sua mãe biológica, pago pelo palácio do opressor. A ironia divina é magistral: o faraó que ordenou a morte dos meninos hebreus financiou a criação daquele que o destruiria.
Moisés cresceu como príncipe do Egito — educado na corte, versado nas ciências egípcias. Mas sua identidade hebreia o consumia. Um dia, viu um egípcio espancando um hebreu. Olhou para os lados, matou o egípcio e escondeu o corpo na areia (Êxodo 2:12). Quando o fato se tornou conhecido, Moisés fugiu para Midiã — de príncipe a fugitivo.
Em Midiã, viveu quarenta anos como pastor de ovelhas, casou-se com Zípora e criou filhos. Parecia que sua história havia acabado em obscuridade. Até o dia em que levou o rebanho ao monte Horebe e viu algo impossível: uma sarça que ardia em fogo mas não se consumia (Êxodo 3:2).
Deus chamou do meio da sarça: "Moisés! Moisés!" E ele respondeu: "Eis-me aqui." Deus disse: "Eu vi a aflição do meu povo. Desci para livrá-los. Vem, enviar-te-ei a Faraó para que tires o meu povo do Egito" (Êxodo 3:7-10). Moisés resistiu: "Quem sou eu para ir a Faraó?" Deus respondeu com a frase mais poderosa da Bíblia: "EU SOU O QUE SOU" (Êxodo 3:14).
No Alcorão
Musa (Moisés) é o profeta mais mencionado no Alcorão — seu nome aparece mais de 130 vezes. Sua história é narrada em fragmentos por todo o livro, mas com detalhes que formam um mosaico extraordinário.
A mãe de Musa recebeu inspiração direta de Allah: "Amamenta-o; e quando temeres por ele, lança-o ao rio e não temas nem te entristeças. Nós to devolveremos e faremos dele um dos mensageiros" (Surata Al-Qasas 28:7). No Alcorão, a mãe de Moisés não agiu por desespero — agiu por revelação. Deus falou ao coração de uma mãe escravizada e ela obedeceu com fé.
A família do faraó recolheu o bebê. O Alcorão acrescenta um detalhe tocante: a esposa do faraó (Asiya) intercedeu por ele: "Ele será uma alegria para mim e para ti. Não o mateis; pode ser que nos seja útil, ou que o adotemos como filho" (Surata Al-Qasas 28:9). Asiya é venerada no Islã como uma das quatro mulheres mais nobres da história — ela encontrou a verdade dentro da casa do tirano.
O bebê recusava todas as amas de leite. Miriã se aproximou: "Indicar-vos-ei uma família que cuidará dele para vós?" (Surata Al-Qasas 28:12). Assim, Musa voltou aos braços de sua mãe. O Alcorão comenta: "Devolvemo-lo à sua mãe, para que seus olhos se consolassem e não se entristecesse, e para que soubesse que a promessa de Allah é verdadeira" (Surata Al-Qasas 28:13).
O incidente do homem egípcio é narrado com consciência moral profunda. Quando Musa percebeu o que havia feito, disse: "Isso é obra de Satanás! Ele é um inimigo que desvia claramente." E suplicou: "Senhor meu, fui injusto comigo mesmo; perdoa-me!" E Allah o perdoou (Surata Al-Qasas 28:15-16). Moisés não é heroicizado — é humanizado.
No vale sagrado de Tuwa, junto à sarça ardente, Allah falou: "Ó Musa, em verdade, Eu sou Allah, o Senhor dos mundos" (Surata Al-Qasas 28:30). E lhe deu dois sinais: o cajado que se transformava em serpente e a mão que brilhava branca como luz quando retirada do manto. Musa confessou seu medo: "Senhor, matei um deles e temo que me matem." Allah respondeu: "Não temas. Estarás entre os seguros" (Surata Al-Qasas 28:31-32). Musa pediu que seu irmão Haroun (Aarão) fosse enviado com ele como apoio — e Allah concedeu.
O que as duas escrituras compartilham
Ambas as escrituras compartilham os mesmos marcos da primeira fase da vida de Moisés:
• Um faraó tirano ordenou a morte dos meninos hebreus.
• A mãe de Moisés o colocou num cesto no rio Nilo para salvá-lo.
• Ele foi resgatado pela família do faraó e criado no palácio como príncipe.
• Sua irmã interveio para garantir que sua mãe biológica o amamentasse.
• Moisés matou um egípcio que espancava um hebreu e fugiu para Midiã.
• Em Midiã, viveu como pastor e casou-se.
• Deus o chamou junto a uma sarça ardente e o comissionou para libertar seu povo.
• Moisés expressou insegurança e relutância, e Deus o reassegurou.
A convergência fundamental: Deus usa os marginalizados para confrontar os poderosos. Um bebê condenado à morte se tornou o libertador. Um pastor fugitivo se tornou o porta-voz do Criador.
O que o Alcorão acrescenta
O Alcorão enriquece significativamente a narrativa do chamado de Moisés:
A inspiração direta à mãe de Moisés (wahi) é um acréscimo teológico importante. No Alcorão, ela não agiu por instinto maternal desesperado — recebeu orientação divina com promessa explícita de retorno. Isso eleva uma mãe escravizada ao status de alguém que recebeu comunicação de Allah.
Asiya, a esposa do faraó, recebe destaque especial no Alcorão. Ela não apenas salvou Moisés — ela o amou e protegeu. Mais tarde, quando ela própria abraçou a fé, o faraó a torturou. Sua oração é registrada: "Senhor, edifica para mim uma morada junto a Ti no Paraíso e salva-me do faraó e de suas obras" (Surata At-Tahrim 66:11). Ela escolheu Deus sobre o poder mundano.
O arrependimento de Moisés após matar o egípcio é tratado com mais profundidade no Alcorão. Ele reconhece o ato como injustiça contra si mesmo, pede perdão e é perdoado. Isso reforça que até os profetas cometem erros — e que o arrependimento genuíno é sempre aceito.
O pedido de Moisés para que Aarão o acompanhasse é narrado com vulnerabilidade no Alcorão: "Meu irmão Haroun é mais eloquente do que eu na fala. Envia-o comigo como apoio" (Surata Al-Qasas 28:34). Moisés não esconde suas limitações — e Allah responde não com repreensão, mas com provisão.
Insight do capítulo
Deus não chamou Moisés apesar de suas falhas — chamou-o com suas falhas, transformando um fugitivo em libertador.