A Bíblia do Kalam
Capítulo 18 · Evangélico 12-15 min
Jesus III: A Ascensão
O desfecho que divide e une
Na Bíblia
Os últimos dias de Jesus em Jerusalém são a narrativa mais detalhada dos Evangelhos — cada hora parece registrada, cada olhar preservado.
Na última ceia, Jesus partiu o pão e disse: "Isto é o meu corpo, que por vós é dado" e tomou o cálice: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós" (Lucas 22:19-20). Lavou os pés dos discípulos — um ato de servo — e disse: "Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros" (João 13:14). Deu um mandamento novo: "Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis" (João 13:34).
No Getsêmani, a agonia foi total: "Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua" (Lucas 22:42). Seu suor tornou-se como gotas de sangue. Judas o traiu com um beijo. Pedro o negou três vezes.
O julgamento foi uma farsa — os sumos sacerdotes buscavam falso testemunho (Mateus 26:59). Pilatos não encontrou culpa, mas cedeu à multidão. Jesus foi açoitado, coroado de espinhos, e levou a cruz até o Gólgota. Na cruz, disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23:34). Ao ladrão arrependido: "Hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23:43). E finalmente: "Está consumado" (João 19:30).
A ressurreição, no terceiro dia, é o alicerce do cristianismo. O túmulo estava vazio. Maria Madalena o viu primeiro. Ele apareceu aos discípulos, comeu com eles, mostrou suas feridas a Tomé (João 20:27). Durante quarenta dias apareceu a muitos (1 Coríntios 15:6). Então, no monte das Oliveiras, "foi elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o recebeu" (Atos 1:9). Dois anjos disseram: "Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir" (Atos 1:11).
Para o cristianismo, a cruz não é derrota — é vitória. A ressurreição não é metáfora — é fato. "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã a nossa fé" (1 Coríntios 15:14). Toda a fé cristã se sustenta ou cai neste ponto.
No Alcorão
O Alcorão aborda os eventos finais da vida terrena de Isa com uma perspectiva radicalmente diferente. Na Surata An-Nisa, encontra-se a declaração central: "E por dizerem: 'Matamos o Messias, Isa filho de Maryam, mensageiro de Deus' — mas não o mataram nem o crucificaram, porém foi-lhes apresentado algo semelhante. E os que discordam sobre ele estão em dúvida a respeito. Não têm conhecimento disso, mas seguem suposições. E certamente não o mataram. Ao contrário, Deus o elevou até Si. E Deus é Poderoso, Sábio" (An-Nisa 4:157-158).
Este versículo é um dos mais discutidos na história do diálogo islâmico-cristão. A tradição islâmica predominante entende que Deus salvou Isa da crucificação — elevando-o vivo ao céu — e que outra pessoa foi feita semelhante a ele aos olhos dos executores. Isa não morreu na cruz; foi honrado com a ascensão direta a Deus.
Na Surata Al-Imran, Deus disse a Isa: "Ó Isa, vou tomar-te e elevar-te até Mim, e purificar-te dos que descreram, e colocar os que te seguem acima dos que descreram até o Dia da Ressurreição" (Al-Imran 3:55). A palavra "tomar-te" (mutawaffika) gerou séculos de debate entre os estudiosos muçulmanos — alguns a traduzem como "fazer-te morrer" (morte natural antes da elevação), outros como "tomar-te completamente" (elevação sem morte).
O Alcorão confirma que Isa retornará antes do Dia do Juízo. Na Surata Az-Zukhruf: "E ele [Isa] será um sinal da Hora [do Juízo]. Não duvideis dela e segui-me. Este é o caminho reto" (Az-Zukhruf 43:61). A tradição profética islâmica (hadith) detalha que Isa descerá em Damasco, quebrará a cruz, matará o porco, e estabelecerá justiça na terra — não como fundador de nova religião, mas como muçulmano que segue a lei final revelada a Muhammad.
O Alcorão é enfático em preservar a humanidade de Isa enquanto o honra: "O Messias, filho de Maryam, é apenas um mensageiro. Passaram antes dele outros mensageiros. E sua mãe era veraz. Ambos comiam alimento" (Al-Ma'idah 5:75). A frase "ambos comiam alimento" é uma forma elegante de dizer: eram humanos, com necessidades humanas, mortais como todos os profetas.
O que as duas escrituras compartilham
Apesar da profunda divergência sobre a crucificação, as duas escrituras convergem em pontos notáveis: ambas reconhecem a ascensão de Jesus/Isa ao céu — ele não permaneceu morto ou desaparecido, mas foi elevado à presença divina. Ambas afirmam seu retorno futuro. Ambas o reconhecem como o Messias (Cristo/Al-Masih). E ambas concordam que seus seguidores seriam colocados "acima dos que descreram até o Dia da Ressurreição."
A honra de Isa é preservada nas duas tradições: na Bíblia, pela vitória sobre a morte; no Alcorão, pela proteção divina contra a morte injusta. Em ambos os casos, Deus não permitiu que a história terminasse com a derrota de Seu mensageiro.
O que o Alcorão acrescenta
A maior contribuição do Alcorão neste ponto é a tese de que Deus salvou Isa da crucificação — uma proteção divina direta que, na perspectiva islâmica, é consistente com o padrão de Deus proteger Seus profetas (como salvou Abraão do fogo e Jonas do peixe). Para o Islã, não seria digno de Deus permitir que Seu Messias fosse humilhado e executado por seus inimigos.
O Alcorão também oferece uma clarificação teológica sobre a natureza de Isa: ele é "uma Palavra de Deus que Ele depositou em Maryam, e um Espírito dEle" (An-Nisa 4:171) — mas não Deus nem filho de Deus. "Não digais 'três'. Cessai! É melhor para vós. Deus é um só Deus. Glorificado seja! Longe está de ter um filho" (An-Nisa 4:171). Esta é a divergência teológica central entre cristianismo e Islã — não sobre a importância de Jesus, mas sobre sua natureza. Ambos o honram; discordam sobre como defini-lo.
Insight do capítulo
A história de Jesus é o ponto onde Bíblia e Alcorão mais divergem — e paradoxalmente, mais convergem em honra. A divergência não precisa gerar ódio; pode gerar a pergunta mais profunda: quem foi esse homem que mudou a história do mundo?